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27 de Abril de 2017, 04:03

Como seria o inferno brasileiro, segundo Stanislaw Ponte Preta

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Relembre o texto famoso de Stanislaw Ponte Preta ( Sérgio Porto ) sobre como seria o inferno, se fosse administrado por brasileiros.

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stanislaw ponte preta foto

 

Um camarada que abotoou o paletó e nem conversou: foi direto para o Inferno. Em lá chegando, pediu audiência a Satanás e perguntou:
 
— Qual é o lance aqui?
 
Satanás explicou que o Inferno estava dividido em diversos departamentos, cada um administrado por um país, mas o falecido não precisava ficar no departamento administrado pelo seu país de origem. Podia ficar no departamento do país que escolhesse. Ele agradeceu muito e disse a Satanás que ia dar uma voltinha para escolher o seu departamento.
 
Está claro que saiu do gabinete do Diabo e foi logo para o Departamento dos Estados Unidos, achando que lá devia ser mais organizado o inferninho que lhe caberia para toda a eternidade. Entrou no Departamento dos Estados Unidos e perguntou como era o regime.
 
— Quinhentas chibatadas pela manhã, depois passar duas horas num forno de 200 graus. Na parte da tarde: ficar numa geladeira de 100 graus abaixo de zero até às três horas, e voltar ao forno de 200 graus.
 
O falecido ficou besta e tratou de cair fora, em busca de um departamento menos rigoroso. Esteve no da Rússia, no do Japão, no da França, mas era tudo a mesma coisa. Foi aí que lhe informaram que era tudo igual: a divisão em departamento era apenas para facilitar o serviço no Inferno, mas em todo o lugar o regime era o mesmo; quinhentas chibatadas pela manhã, forno de 200 graus durante o dia e geladeira de 100 graus abaixo de zero, pela tarde.
 
O falecido já caminhava desconsolado por uma rua infernal, quando viu um departamento escrito na porta: Brasil. E notou que a fila à entrada era maior do que a dos outros departamentos. Pensou com suas chaminhas “Aqui tem peixe por debaixo do angu”. Entrou na fila e começou a chatear o camarada da frente, perguntando por que a fila era maior e os enfileirados menos tristes. O camarada da frente fingia que não ouvia, mas ele tanto insistiu que o outro, com medo de chamarem a atenção, disse baixinho:
 
— Fica na moita, e não espalha não. O forno daqui está quebrado e a geladeira anda meio enguiçada. Não dá mais de 35 graus por dia.
 
— E as quinhentas chibatadas? — perguntou o falecido.
 
— Ah… o sujeito encarregado desse serviço vem aqui de manhã, assina o ponto e cai fora.
* PONTE PRETA, Stanislaw. Tia Zulmira e eu. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
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Que mais?

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