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24 de Outubro de 2017, 00:24

Memória: A ação da PM na guerrilha do Vale do Ribeira em 1970

 

O relato abaixo é de uma página do COE, Corpo de Operações Especiais da PM do Paraná na internet, sobre o combate aos guerrilheiros em 1970, na divisa com São Paulo.

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“No Brasil tentou-se criar diversas vezes movimentos de guerrilha, todos sem sucesso. Contra eles o COE, em conjunto com a PMSP, II e III Exército, atuou no Vale do Ribeira. Em janeiro de l970 a VPR – Vanguarda Popular Revolucionária, iniciou uma base de guerrilha no Vale da Ribeira, sul do Estado de São Paulo. Tendo reunido l9 guerrilheiros em duas bases. Iniciou o treinamento, mas Shizuo Osawa, dirigente da VPR foi preso casualmente ao ser socorrido num acidente de trânsito na cidade de São Paulo.

 

Quase em seguida eram capturados outros dois integrantes da VPR. Eles sabiam da existência da base no Vale da Ribeira e informaram todos os detalhes mediante interrogatório.
Em abril, o COE fecha a divisa do Estado do Paraná com São Paulo e inicia amplo patrulhamento na região. A guerrilha não conseguiu se fixar e com o desbaratamento de seus aparelhos, já divididos em muitas facções, totalmente desnorteados começaram a ser presos com certa facilidade e muitos se entregaram desiludidos e acuados.”

 

Clique nas fotos para ampliar.

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Saiba mais:

Texto da Revista de História:

Comandados por Lamarca, guerrilheiros enfrentaram emboscadas e tiroteios na tentativa de escapar de cercos no interior de São Paulo

 

Wilma Antunes Maciel

 

  • Um campo de treinamento secreto. Cercos armados por policiais locais, PMs e homens do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Durante dois meses no começo de 1970, o Vale do Ribeira, interior paulista, foi cenário de perseguições, emboscadas, fugas, tiroteios, prisões, torturas e uma execução – até hoje presentes na memória dos moradores.Comandados pelo capitão Carlos Lamarca (1937-1971), os homens que arriscaram suas vidas naquela região acreditavam que a revolução começaria pelo campo. Segundo eles, os trabalhadores rurais eram os mais explorados pelo sistema capitalista e os mais reprimidos em suas lutas sociais. Era preciso, então, organizar a guerrilha rural. Foi com esse objetivo que a organização Vanguarda Revolucionária Popular (VPR) deslocou-se para o Vale do Ribeira. O plano se resumia em treinar guerrilheiros. A efetiva implantação das guerrilhas rurais se daria em outros locais. Mas a descoberta da área pelas forças de repressão forçou um confronto real, e o campo de treinamento virou campo de combate, colocando à prova o objetivo que buscavam.Participavam do treinamento três ex-militares e 16 civis. A maioria era formada por jovens militantes da VPR, vindos do movimento estudantil de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. O sítio comprado ficava próximo à cidade de Jacupiranga, e inicialmente alguns militantes viveram lá se passando por lavradores, a partir do final de 1969. Organizaram-se em dois grupos: a base Carlos Roberto Zanirato e a base Eremias Delizoikov, que formavam o núcleo Carlos Marighella. Os nomes das bases e do núcleo homenageavam militantes mortos pela repressão.A rotina era rígida, com marchas de 18 quilômetros por dia carregando mochilas de 30 quilos, exercícios de tiro, de manejo e conservação das armas. A disciplina exigia um guerrilheiro sempre pronto para o combate. Também organizaram grupos de estudo. Liam e discutiam documentos da organização e livros de autores diversos, como Karl Marx, Paul Sweezy, Adolfo Sanches, Josué de Castro, Isaac Deutscher, Che Guevara e Ernest Hemingway, além de manuais e guias de sobrevivência.Em fevereiro de 1970, causou apreensão entre os guerrilheiros a notícia de um acidente de automóvel envolvendo o militante Mario Japa, codinome de Chizuo Osawa, que acabou preso com armas e documentos da VPR. Todos sabiam que ele estava sendo torturado na Operação Bandeirante (Oban) – um centro de informação, investigação e tortura montado pelo Exército em 1969, com o envolvimento de empresários brasileiros e até de multinacionais.

    A solução encontrada pela VPR foi promover um sequestro para livrar Mario Japa da prisão. Um comando da Vanguarda juntou-se aos militantes da organização Rede Democrática (Rede) e do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), e sequestrou o cônsul japonês em São Paulo, Nobuo Okuchi. Aproveitaram para pedir também a libertação de mais quatro militantes e três crianças – filhos da prisioneira Damáris Lucena, que também era mãe de Ariston Lucena, um dos que estavam no Vale. Embora o sequestro tenha sido bem-sucedido, o cerco se apertava. Outras prisões se sucederam até que, em 17 de abril, o Centro de Informações do Exército (CIE) comunicou ao II Exército a existência do campo de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira.

    A movimentação policial na região logo foi percebida por Lamarca, que avisou seus comandados. Do posto de vigia, acompanharam a chegada de caminhões com tropas, aviões e helicópteros fazendo voos rasantes. Antes do final de abril, já estavam completamente cercados, com todas as saídas fechadas. Decidiram não romper o cerco, pois possuíam bons mapas e conheciam bem a região. Enveredaram-se pelo mato.

    Na pequena cidade de Barra do Areado, apresentaram-se à população como caçadores e alugaram um caminhão para ir até Eldorado Paulista. No entanto, foram denunciados pelo filho do dono do veículo alugado e enfrentaram um tiroteio em plena praça de Eldorado. Mesmo com um dos militantes feridos, conseguiram fugir em direção a Sete Barras. Ao chegarem às proximidades do rio Ribeira de Iguape, foram surpreendidos por um pelotão com 38 soldados. Da carroceria do caminhão, os guerrilheiros iniciaram um tiroteio contra o caminhão dos soldados da Polícia Militar, e com uma rajada de metralhadora FAL partiram o veículo dos militares em dois. Assim capturaram 18 prisioneiros, dez deles feridos.

    Lamarca pediu para falar com o comandante, e propôs um acordo ao tenente Alberto Mendes Junior: aos guerrilheiros caberia cuidar dos feridos e não executar ninguém. Em contrapartida, o tenente deveria levantar o bloqueio em Sete Barras. Mendes, perante a sua tropa, compromete-se a cumprir os termos da rendição.

    Os feridos foram levados para um hospital em Sete Barras e, segundo depoimentos dos soldados nos processos, mostravam-se surpresos por estarem sendo tratados com respeito. Esperavam ser fuzilados e eram socorridos, os guerrilheiros explicavam a sua luta, diziam que nada tinham contra soldados que apenas obedeciam ordens.

    O tenente acompanhou os feridos e dois guerrilheiros num carro, que acabou atolando. Os guerrilheiros então deixaram os feridos com o tenente e saíram em busca de ajuda. Como não conseguiram meios para prosseguir, voltaram para a estrada, encontrando o tenente voltando do local onde o haviam deixado. Os feridos haviam sido levados por outro veículo que viera pela estrada. O tenente voltou por conta própria e garantiu que não havia bloqueio em Sete Barras. Os guerrilheiros prosseguiram na caminhada e colocaram o tenente na frente da fila indiana, alertando: “se houvesse emboscada, ele seria o primeiro a tombar.” Na entrada da cidade, porém, viram-se cercados por todos os lados. O grupo conseguiu escapar por um braço da serra, mas dois companheiros se perderam. Na confusão, aconteceu um episódio de fogo amigo: julgando saber a posição dos oponentes, soldados da Polícia Militar abriram fogo, ao que o Exército respondeu na mesma medida, dando-se então um tiroteio entre as forças da repressão.

    Depois da emboscada, restavam apenas cinco guerrilheiros, que se revezavam para vigiar o tenente Mendes, levado como refém. O oficial foi julgado culpado por um tribunal revolucionário, sob a acusação de traição por ter rompido o acordo e tê-los encaminhado para uma emboscada. A decisão final foi tomada por Lamarca, Yoshitane Fugimori e Diogénes Sobrosa de Souza.  Havia também o receio de que o militar denunciasse a posição do grupo. O tenente Alberto Mendes Junior foi então executado e enterrado. O tenente foi executado a coronhadas por Fugimori e Sobrosa.

    Fugindo debaixo de chuva, Lamarca resolveu permanecer dentro do cerco tático.   Faminto, o grupo chegou a pedir que um casal comprasse comida para eles, mas o homem foi preso e torturado pelos militares, revelando informações sobre os guerrilheiros. Decidiram, então, não mais fazer contato com as pessoas. No final de maio, conseguiram tomar um caminhão do Exército, prendendo os soldados e o sargento na carroceria. Vestidos com as roupas dos militares e de posse da senha por eles informada, passaram pela barreira da polícia e, enfim, conseguiram fugir para a capital paulista.

    O conhecimento do capitão Lamarca sobre o tipo de movimentação militar empregada foi fundamental para romperem o cerco. Segundo Ariston Lucena, parte do êxito da fuga deveu-se também a Fugimori, que era um excelente mateiro e ótimo atirador, assim como Lamarca. Essas virtudes e a capacidade de fuga dos militantes povoam até hoje a memória de antigos moradores. Há até quem diga que Lamarca não morreu e que ainda pode estar por lá, em algum canto da mata.

     

     

    *-Wilma Antunes Macielé, professora da rede estadual de ensino de São Paulo e autora de “O capitão Lamarca e a VPR: Repressão judicial no Brasil” (Alameda Editorial, 2006).

     

    Bibliografia

    JOSÉ, Emiliano e MIRANDA, Oldack. Lamarca: o capitão da guerrilha. São Paulo: Global, 2000.

    PAIVA, Marcelo Rubens. Não és tu, Brasil. São Paulo: Mandarim, 1996.

     

     

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3 Respostas to "Memória: A ação da PM na guerrilha do Vale do Ribeira em 1970"

  1. Walmor Zimerman (Saul) disse:

    Não deixam de ser tristes fatos de nossa história. É possível que naquela época não dimensionassem as reais causas dos regimes ditatoriais que se espalharam pela América Latina. pois dois blocos econômicos e políticos queriam exercer sua influência, URSS e EUA, a primeira acreditava que estaria na doutrina comunista a solução dos problemas da sociedade; quanto ao segundo, – regime capitalista. – apesar de suas falhas, pode ser aprimorado através de um democracia participativa, o que não é possível no primeiro caso; pois parte do pressuposto, que os seres humanos têm uma vida tão somente, razão pela qual não da certo; cada ser humano é o resultado de inúmeras experiências reencarnatórias, isto é, somos o resultado de “inúmeras” vidas… E´o que temos abordado em nosso Blog: http:mensagensdiversificadas.zip.net

  2. anilson disse:

    fiquei arrepiado em saber que a historia que meu tio conta até hoje , é pura verdade , pois nasci la 37 anos numa casinha de sapé no meio da mata, meus pais e parentes erão sitiantes lavradores na divisa de sp pr br 116, meus parentes trabalharão na construção br que liga os dois estados , o sitios invadidos pelos guerrilheiros, que la são chamados até hoje de (jagunços) era de amigos e parentes meus, e é até hoje em rodas de prosas com os mais antigos estas historia são as mais cogitadas( vou comprar os livros pra mostrar paro povo de la , eles nem imaginam que existe as historias em livros , nem eu imaginava , sobre este fato acontecido na minha terra natal

  3. Edison Bindi Sub TenRR. disse:

    Como 2o Sgt, nesta época eu servia no Corpo de Operaçoes Especiais. Todos que ali aparecem muitos ja nao mais conosco, participamos do apronto de equipamentos do COE , no patio do QG em frente o alojamento do COE, na época tinha muitos comandantes, mas na hora do pega pra capar, o numero de Oficiais foi reduzidíssimo, e as nossas armas o Mosquetão, cali 7mm, não tinha raia mais, e tinha uns que nem massa de mira tinha, e mais os canos nao tinham mais rais, éra uma vergonha, mesmo assim com a cara limpa, o COE SE SAIU MUITO BEM, muitas outras organizações militares, estampavam medo, muito mais que nós |Policiais, ja acostumados a enfrentar bandidos, sintentizando prevaleceu a hirarquia e valentia dos Coeanos. Fui…

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